BAIRRO DO AREEIRO

O plano do Bairro do Areeiro data de 1938 e é da autoria do Arquitecto Faria da Costa. Os projectos de habitação foram desenvolvidas por duas equipas de jovens arquitectos, que se ocuparam de zonas distintas do plano:
- Alberto Pessoa, Raul Chorão Ramalho, José Bastos e Lucínio Cruz - Av. Paris e Praça Pasteur
- José Segurado, Joaquim Ferreira, Filipe Guerreiro e Guilherme Gomes - Av. João XXI e Av. Presidente Wilson
A execução do plano processou-se em duas fases distintas, em 1940 e depois em 1948. Primeiro foram construídos os edificios da Av. de Paris e Praça Pasteur. Posteriormente foi a Av. João XXI e a Av. Presidente Wilson.
O bairro do Areeiro integra-se no extenso programa de construção de frentes urbanas lançadas por Duarte Pacheco, então ministro das obras públicas e também presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entre os anos 30 e 40. A fim de evitar um crescimento desordenado da cidade, bem como a proliferação de arquitectura de má qualidade , consequências notórias de interesses privados e especulativos, passou então o municipio a deter a exclusividade dos planos de expansão da cidade. A câmara além de ser responsável pelos traçados urbanos, passou a vender os lotes com os respectivos projectos a construir. Através deste politica poder-se-ia evitar a excessiva ocupação dos lotes, limitar o número máximo de andares, assim como preservar os edificios de futuras construções que lhe roubassem o sol e a vista. Assim os projectos eram estudados em conjunto, ou seja, formando um todo harmonioso, mas com a possibilidade da sua divisão em parcelas.
Kevin
Lynch defende que um bairro é como um fragmento de cidade, mais ou menos vasto,
apresentando características que o particulariza e diferencia de outros bairros
na cidade. Um cidadão quando o penetra consegue aperceber-se da sua intrusão,
tem consciência da intimidade que invade.
AS
PRAÇAS
A noção de praça liga-se à ideia de espaço público por excelência. No caso deste espaço existe um claro desencontro entre os objectivos conceptuais do projecto e a sua apropriação pela cidade. Falamos da Praça Sá Carneiro (Praça do Areeiro) e da Praça Pasteur. A primeira é indubitavelmente o espaço publico por excelência da zona. As suas dimensões, os importantes eixos viários que a cruzam, as volumetrias mais elevadas do edificado, etc. A Praça Pasteur, por seu lado, deveria ser um espaço de importância, como que um ponto intermédio entre a Praça de Londres e a Almirante Reis. A própria volumetria do edificado e o ênfase na forma como interrompe a Avenida de Paris em tudo apontariam para isso. Ainda como estrutura principal será fundamental referirmos que as avenidas principais do plano (ou que com ele confinam) são a Avenida João XXI e a Avenida Almirante Reis. O primeiro “conflito” poderá ser já aqui apontado. Por norma, existe uma grande relação entre as vias principais e as praças principais. Se é certo que a Praça do Areeiro segue cuidadosamente este principio, o mesmo já não acontece na Praça Pasteur. Esta não confina directamente com nenhum eixo principal o que leva a que a sua importância conceptual não se tenha vindo a verificar na vivência da cidade.
Praça Francisco
Sá Carneiro
AS
RUAS
O Plano de Faria da Costa previu a construção de duas
avenidas no sentido Este-Oeste (Av. de Paris e Av. João XXI) e de uma outra, de
menores dimensões, no sentido Norte-Sul (Av. Presidente Wilson). A Avenida João
XXI, apresenta um perfil transversal mais complexo, possuindo duas vias de tráfego
em cada sentido, com um separador central. Esta é uma via importante no
contexto da cidade de Lisboa, ligando a zona das Avenidas Novas à zona
oriental. A Av. de Paris, com um perfil mais reduzido, pertence a um nível hierárquico
inferior. Curiosamente parece-nos que a qualidade do espaço na Avenida Paris e
até na Praça Pasteur é bastante melhor do que na Avenida João XXI ou na Praça
do Areeiro. Os passeios são espaçosos, com árvores de ambos os lados. O trânsito,
apesar de muito frequente, nunca atinge grandes níveis de intensidade, pois as
dimensões da avenida não o permitem e a pacatez dos edifícios, na sua maioria
residenciais, levam a uma sensação de bem estar. Contudo, como este é um
percurso quase de recurso (para fugir ao trânsito na João XXI, para alcançar
mais rapidamente a Almirante Reis), vemos que esta não é uma rua de grande
movimento pedonal. Inclusivamente, o comércio aparece de uma forma muito tímida,
o que não contribuirá de certo para animar aquele espaço. A Rua Presidente
Wilson, limitada por túneis, apresenta um ar mais íntimo, dando a ideia de
protecção em relação aos grandes eixos viários. É a partir dela que se
pode aceder aos espaços dos interiores dos quarteirões.
Av. João XXI
OS
LOGRADOUROS
Resta-nos
referir os espaços correspondentes aos logradouros. Estes são espaços que são
públicos e de livre acesso a qualquer transeunte. Contudo, pela sua entrada
indirecta, por meio de galerias na Rua Presidente Wilson, apresentam um carácter
que será sempre de descontinuidade e de salubridade para com os edifícios
residenciais que os confinam. São espaços que actualmente estão bastante
degradados e sub-aproveitados. Com dimensões ainda razoáveis, poderiam
funcionar agradavelmente como espaços verdes, de recreio ou lazer, numa
perspectiva mais íntima, ao contrário do estacionamento caótico actual e da
inexistência de quaisquer condições
que os caracterizem.
Como
se pode verificar por esta crónica que passamos a transcrever, já em 1946
existiam problemas relativamente à utilização dos lougradouros: “Alguns
blocos municipais são atravessados por ruas interiores de serviço. A ideia era
boa, mas tem os seus inconvenientes porque não foi completada: a certas horas
começa a afluir nelas uma fauna especial para derriçar criadas até altas
horas da noite. E como se esqueceu a câmara de mandar iluminar essas artérias,
apesar de as considerar municipais, pode bem calcular-se as inconveniências.
Ainda por falta de luz e de policiamento condigno são frequentes os assaltos
aos quintais, francamente expostos às investidas dos industriais do furto,
sendo vulgar desaparecerem peças de roupa dependuradas em 1ºs andares.”
logradouros
com entrada pela R. Presidente Wilson
Globalmente,
parece-nos bastante difícil conseguir reconhecer neste bairro a identidade que
Kevin Lynch nos propõe e que referimos inicialmente. Apesar de ser um zona
consolidada, perfeitamente estabelecida e integrada no tecido da cidade, a ideia
que retemos deste local é sempre a de um espaço de transição entre dois pólos
importantes. O bairro do Areeiro, na sua actual situação e com as características
que apresenta, é sentido pelos cidadãos como uma “franja” da Avenida de
Roma que se interrompe no impasse que é a Praça do Areeiro. Acreditamos que se
a Praça Francisco Sá Carneiro conseguisse atingir um verdadeiro estatuto de
espaço público, e não de ponto de distribuição viária, e se se integrasse
num tecido urbano explicito com seguimento para as Olaias ou para a Gago
Coutinho, talvez o Bairro do Areeiro se conseguisse afirmar. Presentemente a
impressão que fica é a de um prolongamento da Avenida de Roma, por uma
necessidade de ligação à Almirante Reis.
Caracterização da Arquitectura do bairro
A
arquitectura do Bairro do Areeiro é fundamentalmente residencial. Exteriormente
existe uma grande homogeneidade entre os diversos edifícios. Nas vias de menor
importância os edifícios são mais baixos e com um número de pisos constante.
Nas praças – F. Sá Carneiro e Pasteur -
e nas avenidas principais – João XXI –a altura dos edifícios sobe
dois ou três pisos. O tratamento conferido aos alçados é também muito
constante. De uma maneira geral o piso térreo pode apresentar ou não espaços
comerciais, sendo no entanto quase sempre revestido a pedra. Nos pisos
superiores, quase sempre habitacionais, a métrica e dimensão dos vãos é
bastante regular. As janelas apresentam inclusivamente dimensões muito próximas
de edifício para edifício, sendo a sua formalização executada claramente em
concordância com os edifícios envolventes: os caixilhos em madeira, as
molduras em pedra…As varandas, também muito comuns, seguem sensivelmente
estes princípios. São sempre revestidas em pedra com guardas metálicas. O
revestimento dos edifícios varia geralmente entre a pedra e o reboco. É
interessante verificar que de acordo com a localização do edifício numa via
de maior ou menor importância assim o revestimento a pedra se prolonga
mais ou menos para o primeiro e segundo piso. Quando isto não se verifica,
mesmo nos acabamentos a reboco, existe uma grande consonância cromática nas
pinturas. Por norma, o último piso é igualmente revestido a pedra,
independentemente do edifício. Diríamos até que parece ter havido algum
cuidado em seguir a trilogia clássica da composição das fachadas: o
embasamento, maior ou menor como já vimos surge sempre em pedra, os pisos
intermédios constituem uma espécie de entablamento onde os vãos e as varandas
são claramente menos pesados, e todo o conjunto é finalizado por um friso,
onde a pedra volta a surgir, embora em dimensões e proporções bastante mais
ligeiras que no embasamento.
Av. de Paris
Os alçados para os logradouros são uma grande surpresa. Se é certo que existe uma grande regularidade dos alçados principais, é nos logradouros que nos apercebemos das grandes diferenças entre os vários edifícios. As fachadas posteriores apresentam uma composição simples, baseadas exclusivamente nas necessidades resultantes da composição das plantas. Não existe uma métrica regular de vãos, nem nas suas dimensões, nem tão pouco na cor e qualidade dos revestimentos. É como se os edifícios fossem sujeitos a uma pele exterior regularizadora das inúmeras diferenças entre estes para o resultado ser aquela grande regularidade das frentes edificadas. A qualidade dos revestimentos é também bastante inferior à qualidade das fachadas principais, sem qualquer recurso a revestimentos em pedra. A nível do piso térreo, existem alguns edifícios com espaço próprio exterior anexo, onde podem existir ou não arrecadações, ou para onde podem dar as habitações destinadas às porteiras. Convém referir que existem também casos em que há habitação no piso térreo, embora esse seja sempre bastante elevado em relação ao nível da rua. Actualmente, com o desenvolvimento do terciário, e à semelhança do que foi acontecendo um pouco por toda a cidade, esses espaços exteriores foram sendo ocupados por estabelecimentos comerciais.
Resta ainda referir que as coberturas são sempre em telha, geralmente suportadas por uma estrutura de madeira em asna.
Caracterização do espaço interior
A nível interior
estes prédios apresentam a particularidade de terem sido concebidos de acordo
com as necessidades da população da época, verificando-se um maior cuidado
com a distribuição e compartimentação. Têm uma tipologia de
direito/esquerdo em torno de uma escada principal, geralmente associada a um ou
dois elevadores, e possuem igualmente, na sua maioria, uma escada de serviço.
Cada fogo é composto vulgarmente por três zonas distintas, que variam em função
do tipo de edifício:
-
a
zona comum, de carácter mais público onde se inclui um escritório, uma
sala de visitas, uma sala de jantar e um vestíbulo de entrada com ligações a
outras zonas.. Não era comum existirem instalações sanitárias de apoio a
esta área.
-
a
zona íntima, onde se localizam os quartos e uma ou duas instalações
sanitárias. Por esta zona ficar afastada das entradas, da zona comum (de carácter
mais publico) e curiosamente, ao contrário daquilo que é hoje tão comum nas
habitações recentes, não existia nenhum quarto com casa de banho privativa. Não
existia um grande número de quartos, ao contrário do que era comum nas casas
das Avenidas Novas, sendo o seu número na ordem dos 3, 4 quartos no máximo.
Este facto é facilmente compreensível se tivermos em conta que estas habitações
se destinavam a casais jovens.
- a zona de serviço compõe-se pela cozinha, pela copa e despensa, bem como pelo quarto da criada (era vulgar ter empregada interna) com a respectiva casa de banho. Na zona da cozinha havia geralmente ligação para uma escada de serviço, que quase sempre se encontrava próxima, ou mesmo adjacente à escada principal. Nalguns casos poderia existir ou não um elevador de serviço.
Pelo
facto de termos analisado um fogo exemplificativo de cada avenida,
em termos de planta, verificámos que existem diferenças significativas, em
termos das áreas dos fogos e da sua distribuição interna. No caso da Praça
Pasteur, a zona de serviço restringe-se apenas à cozinha, a zona íntima
possui dois ou três quartos com uma Casa de Banho e a zona comum limita-se a
uma sala comum. Os fogos da Avenida de Paris, de maior dimensão, apresentam uma
zona de serviço mais completa, com cozinha, dispensa, quarto da criada com a
respectiva instalação sanitária e a escada de serviço. As zonas íntima e
comum são semelhantes às da Praça Pasteur. Em relação aos fogos da Avenida
João XXI, estes apresentam uma zona de serviço semelhante aos da Avenida de
Paris, enquanto a zona íntima possui uma área maior, com três quartos e duas
casas de banho, e a zona comum caracteriza-se por uma sala de estar e uma de
jantar.
A nível da cave, podemos verificar, no caso da Av. João XXI, a existência de diversas zonas: uma zona de arrecadações, a habitação da porteira (constituída por um quarto, cozinha, sala de estar/jantar, casa de banho e dispensa), um elevador de serviço e respectiva casas das máquinas, duas câmaras de recepção dos lixos diários a zona das caldeiras ( compartimento para a caldeira e combustível do aquecimento central). Para além destas zonas, surge outra relacionada com as lojas localizadas no rés-do-chão, que se resume a uma escada independente, um escritório e uma arrecadação, com vista apenas para as traseiras. Ainda no rés-do-chão surgem duas habitações tipo appartement (sala de estar/jantar, quarto, casa de banho, cozinha e dispensa).

Planta de um edificio da Av. João XXI
Faculdade de Arquitectura - UTL - Licenciatura de Arquitectura - 4º ano - Turma C
Síntese do Trabalho "Arquitectura do Bairro do Areeiro" realizado para a cadeira de Urbanismo I
Ana Luisa Maneira - Claudia Alves Morgado - João Marco Gonçalves - Márcia Silva Xavier - Maria José Ramalho